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Passou o Bloomsday, 16 de junho, e ninguém notou? Nem eu. Sabia que George Orwell escreveu que Joyce era um 'pedante mastodôndico'? E que tem nova tradução de Ulisses na praça, feita por uma mulher, mas que custa R$ 69,50? E que achei numa ponta de estoque, por R$ 4,90, o livro Rimbaud, filho, de Pierre Michon? E que achei o livro, no sebo, por R$ 14,00, Dentro da Baleia, ensaios do George Orwell?

George Orwell, autor de 1984 e A revolução dos bichos.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 14h00
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Les enfants de la patrie de chuteirrás!
A Copa já está pela metade, os 32 jogos se perderam na poeira, os corpos estão cansados, os copos estão cheios, as árvores perderam as folhas da copa. Hoje o inverno devia dar as caras e a cara a tapa. O sol foi mais forte que a encomenda e veio sem timidez bloquear nossos espantos e desencantos. Faz um dia normal de automóveis e barulhos de construção. O mundo não pára. Isso todo mundo finge que sabe, mas ninguém prova. O Brasil já está classificado, mesmo jogando sem classe. Isso é competição, não comercial de televisão, oras! Não tem diretor que pare a cena e faça cada atleta ser um mágico e a bola um coelho lépido e gracioso que enche os olhos e os corações. É a dura labuta de profissionais, gente séria, trabalhadora. Gente forjada em treinos fatigantes, lapidada com sangue, suor e lágrimas. Jornadas exaustivas diante de câmeras com perguntas idiotas de jornalista nunca satisfeitos. Ah, as poderosas oitavas de finais, quando cada passe, cada drible, cada intenção ou gesto, pode levar ao Paraíso ou ao Inferno. As portas da percepção se fecham e abrem-se pernas, braços, olhos, carteiras. Olhos fixos na bola, nos rodopios, nos levantamentos para dentro da grande área, tirambaços de fora da área, nos escanteios tenebrosos, nas traves impiedosas, nos cartões vermelhos, nos pênaltis, nos discutidos impedimentos. Ah, goleiros! Tirem essa felina agilidade da frente do gol que nosso escrete quer passar com nossa dor. Dor de anos de opressão, de sofrimentos, de ditadura, de fome, de pobreza, de politicagens. Ah, pára de chorar miséria! Em tempo de Copa do Mundo tudo o mais é café pequeno. Estádios esplendorosos e caríssimos sempre lotados. Sessenta mil torcedores em média! Deutschland über alles! Esta é a pausa que refresca: nenhum terrorismo é mais poderoso do que noventa minutos de bola rolando. Nem dez mortos no Iraque empanam o brilho do gol do Brasil, nem Bussunda de coração explodindo tira os méritos da classificação sem méritos. Não é hora de refletir, é hora de refletores. Milhões de dólares e euros rolam em gramados impecáveis e extremamente bem guardados. Força, valentia, juventude, vigor físico, preparação técnica e tática e futebol burocrático. Eis a Copa. Eis o fundo do copo. Garçom, sai a traideira!
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 13h18
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