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NEOpseudoSUPRAhiperULTRAsuperMEGApower do Werneck |
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A Nasa e Eu - no espaço.
Bom dia, boa tarde, boa noite. Depois de tentar de todas as maneiras chamar a atenção dos leitores terrestres, sem conseguir, resolvi procurar outro nicho de mercado. Mandei o NeoPseudo... pro espaço sideral. Sem braço robótico nem nada. Tem um selo novo no lado direito, embaixo. 'É nóis nos confins do Universo!' Se algum marciano ou jupiteriano ler, ótimo. Talvez me entenda. Como diz o blues, meu e do Striq, 'pegue sua nave e abra todo gás/vá roubar pedra em Marte ou na Lua/voe pra lá dos quintos do Universo/onde talvez/talvez/você encontre a paz.' Que tiver asas, me acompanhe.
W,
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 09h05
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ÔNIBUS ESPACIAL: RECOLHE
A Nasa pôs a plaquinha de RECOLHE no ônibus espacial. Suspenderam por tempo indeterminado o programa. Motivo: o mesmo problema que desintegrou o Columbia aconteceu no Discovery. O Columbia matou sete. O Discovery está lá em cima. Com seu famoso braço robótico de mais de 15 metros. O chefão disse: “Nós decidimos que era seguro voar dessa maneira. Obviamente, estávamos errados.” E os sete samurais estão lá em cima, esperando pra voltar no dia 7 de agosto e comer um barbecue bem passado. O problema de dois anos e meio atrás não foi solucionado, mas eles mandaram sete objetos humanos pra lá. E eles estão com a vida por um pedaço de espuma que se desprendeu da nave. E estão inspecionando e cutucando o nariz do ônibus com o braço robótico! Que caca!

GELO MARCIANO
Gelo é feito de água, né? Pois, pelo que sei, faz séculos que nós da Terra estamos tentando encontrar vestígios de água em Marte. A foto de lá mostra que tem gelo. Do que ele é feito? Os marcianos bebem uísque com aquilo? Então, deve ser água!
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 15h24
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Só pra esquentar a alma: Dance! Lula disse: "O momento é grave. Não vamos brincar." O chefe da Nasa disse: "O momento é difícil. Não podemos brincar."
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 13h06
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Hoje eu tô com a macaca!
Lauren Slater, 39 anos, é uma daquelas mulheres bonitas e inteligentes que, logo que aparecem na mídia, são candidatas a ‘musa da estação’. Comprei o livro dela no sebo. Fui procurar A vida, modo de usar, do Georges Perec e acabei saindo com Mente e Cérebro, da autora. Ela tem, no mínimo, uma maneira diferente de abordar os experimentos da psicologia social. Fez alguns livros bem recebidos no meio acadêmico. O que comprei tem o título original Opening Skinner’s box (Abrindo a Caixa de Skinner). Acho que o editor e o tradutor preferiram estender o conteúdo a um potencial maior de leitores leigos. Mente e Cérebro atrai mais. Só que o livro é sobre ‘dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano’. Quem acha que vai encontrar coisas técnicas sobre cérebro e mente... pára no primeiro capítulo. Eu sou curioso a respeito do nosso comportamento. As guinadas que damos pra acompanhar as viradas da situação me impressionam. Por exemplo, o Atlético Paranaense estava na bica pra ser campeão da Libertadores. Aqui, era uma motivação só. Todos os torcedores atleticanos já contavam com o ovo no fiofó da galinha. Depois dos vexaminosos 4 x 0, mudaram imediatamente de atitude dizendo que ser vice da Libertadores era o máximo. Um coro imenso de torcedores entoando o mesmo bordão: Vice da Libertadores! Estou no sétimo capítulo do livro. Passei pela caixa de Skinner, pela obediência à autoridade do Milgram, pelo ser são em lugares insanos, pelo manual de treinamento de Darley e Latané, pelos experimentos de Leon Festingerr, pelos primatas de Harry Harlow e entro agora no parque dos ratos. Todos são impressionantes relatos. Lauren Slater escreve em linguagem ‘popular’, sem preciosismos psicológicos. Mas, ela não tira muitas conclusões ‘conclusivas’. Porque os experimentos são antigos, ela tem acesso a participantes, arquivos e relatos. Visita o lugar escuro onde está a caixa de Skinner (onde o psicólogo supostamente prendeu a filha bebê durante dois anos. E por isso foi execrado.) Na verdade, ele inventou uma cama cheia de confortos – sem arestas, macia, etc. Mas, a mídia caiu de pau. Isso me intriga, também: a atitude reducionista que a gente precisa ter diante dos fatos da vida. Pra nossa cabeça não dar muitas voltas, a gente reduz tudo: Tevez (Carlitos Tevez, jogador) = Briguento. Pronto, nossa cabeça fica em paz. Outra coisa que sempre pensei: a cega obediência às autoridades. Como é que todos aqueles nazistas não diziam não à matança de judeus? Nenhum titubeava? Punham a cabeça descansada no travesseiro? Stanley Milgram experimentou: pegou pessoas comuns e, mediante pagamento, disse que elas tinham que dar choque num cara que estava em outra sala. Era assim: a pessoa lia palavras e pedia que o cara que ia levar choque repetisse. Cada erro, um choque. O cara, lógico, não recebia choque nenhum e errava de propósito. Milgram descobriu que 65% das pessoas comuns, bem comandadas, elevaram a potência do choque até o maior grau: o letal. Chocante descoberta.
A macaca do título vem do ensaio sobre os primatas e o amor, experimentos de Harry Harlow. Ele descobriu, para espanto do mundo, que o amor existe. Isso, ensaiando com macacos rhesus. Que a gente precisa de afeto, carinho e tudo mais pra ser gente. Será? Não perca os próximos capítulos.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 13h05
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Quando um vinho fala, a cachaça abaixa a orelha.
Fazendo uma agenda para um cliente, recebi os textos e, no meio deles, um glossário com vocabulário do vinho. Interessante. De A a V tem palavras para definir gosto e tipo dos vinhos. Veja:
Aberto: de cor clara; acerbo: ácido, verde; adamado: vinho para mulher, suave e doce; amável: suave ou ligeiramente doce; apagado: de aroma inexpressivo; austero: adstringente; botritizado: vinho de sobremesa, doce e licoroso; carnoso: encorpado; complexo: de aromas múltiplos; curto: sabor inexpressivo, de retrogosto curto; denso: viscoso; delgado: pouco corpo; farto: muito doce e com baixa acidez; firme: jovem com estilo; foxado: odor e gosto de pêlo de raposa; fortificado: com adição de aguardente vínica; franco: sem defeitos; generoso: forte e com alto teor alcoólico; gordo: suave e maduro; grosso: elevada acidez e muito extrato; herbáceo: com aroma de ervas; longo: de boa persistência; magro: aguado; mole: sem caráter; nervoso: acidez e adstringência altas, mas não excessivas; oleoso: viscoso; pequeno: secundário; sápico: acidez moderada; terroso: sabor de terra; verde: acidez acentuada, mas agradável e refrescante.
Peguei só alguns verbetes pra dar idéia do que se passa na produção e degustação dos vinhos. Por isso, os enólogos são tão cheios de palavreado, tão arrogantes. Se ‘acham’. Por isso, sempre fico absorto olhando aquelas gôndolas de supermercados cheias de garrafas de preços tão disparatados e de tão nobres procedências. Nosso cliente produz 800 mil litros/ano. As uvas vêem do Rio Grande do Sul (50%). É vinho pra consumo imediato, ‘de mesa’, tipo Santa Felicidade, Colombo. Vinho de festa com frango, polenta frita e risoto. Um litro custa uns 7 reais. E nem adianta tentar colocar o glossário em cima dele. Ele faz a alegria do povão que acha tudo ‘duca’. E só.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 09h49
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A Lua não foi conquistada. Foi apenas cortejada.
É verdade que o ônibus espacial Discovery subiu. Está a caminho de uma importante e séria missão. Eu tinha dito que não sabia o que faria na bagagem um braço robótico de mais de 15 metros. Um braço só. Agora, sei. Uma das tarefas dele é, mal chegando lá, ir procurar na própria lataria do ônibus o que foi que se soltou dela no lançamento. Verdade. Os técnicos da Nasa viram algo se soltando da nave por uma das muitas câmeras instaladas. Ficaram cabreiros. Por causa de um pedaço da proteção que se soltou no Columbia, ele se desintegrou quando entrou na atmosfera terrestre há dois anos e meio. O braço vai futucar a lataria e ver o que aconteceu. A entrada na atmosfera é coisa de cinema. Tem que ser perfeita ou a coisa fede. Ferve, melhor dizendo. A velocidade é tremenda e o choque é brutal. Os sete tripulantes devem estar coçando a cabeça. Com o dedo robótico, é claro.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 15h53
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O perfeito
Pelo enviesado da hora
e pelo que capto de perto
de propósito desatento, semidesperto,
pelo que deixo de lado,
nem imagino dentro
e declino de ver por fora –
sendo tudo um só agora
porque não soube ontem
nem tive durante,
só vejo e desejo desse jeito
– me parece perfeito
para hoje, depois e outrora.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 15h09
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Viagem ao interior
A cidade era antiga.
As casas cheiravam
mofo.
Os habitantes
eram de antanho.
Antigo era o cemitério.
Mas o enterro
era de um morto
novinho em folha.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 15h09
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Felicidade
Você põe a camisa nova
e sai pra rua.
A etiqueta da gola
pinica no pescoço.
Você pega a tesoura
e apara a etiqueta.
O que é a felicidade?
Pôr camisa nova
ou tirar o incômodo
da etiqueta que pinica?
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 15h08
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simplesmente
seja simples
simplesmente
mente aberta
abertamente
mente doce
docemente
mente certa
certamente
mente rara
raramente
mente doida
doidamente
mente clara
claramente
seja frágil
fragilmente
mente linda
lindamente
mente ágil
agilmente
mente alegre
alegremente
mente meiga
meigamente
mente viva
vivamente
mente calma
calmamente
mente nova
novamente
mente simples
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 14h40
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Avis: risque de choc electrique. Ne pas ouvrir.*
A vida parece ter mais sentido agora. Embora continue sem direção. As pessoas inteligentes estão deixando as mega-empresas para abrir seus próprios negócios. Vendem pé-de-moleque e cocada com a mesma empolgação com que ofereciam supercarrões a milionários enfastiados. Os pais acompanham de perto o crescimento dos filhos, pois agora trabalham em casa. Uma pessoa sozinha pode viver desfrutando serviços comuns: salas de internet, cozinhas avançadas, lavanderias, escritórios equipados, sauna, banheiros públicos. Os parques estão infestados nos finais de semana. Uma aura de bondade paira sobre lagos, bosques, churrasqueiras, trilhas e pessoas. As ruas ficam para as hordas durante a noite. O retiro em paz das pessoas de bem está garantido por comida, vídeo/dvd, remédios e outras necessidades, tudo entregue em casa. O casulo está quentinho e aconchegante. Ronronamos de satisfação, refestelados no sofá. Como bichos gordos e macios rolamos pela sala, pelos quartos e outras dependências. Eletroeletronicamente nos conectamos com o mundo. O controle remoto é nosso rei. De vez em quando fura o bloqueio a notícia triste de mais um motoboy que perdeu a vida para nos servir rapidamente e nos salvar. Ah, por um momento nosso coração se aperta! Mas logo vai começar mais um hiperfilme-catástrofe de supermega-impacto emocional e excelentes efeitos visuais. Cheiro de pipoca com manteiga invade a sala – suspiramos e recuamos.
Do livro Fragmentos em frangalhos
(inédito) de John Lewis Lee, Ph.D.
*Aviso: risco de choque elétrico. Não abrir.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 14h09
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A SERIEDADE E A BRINCADEIRA
Um pintor estava sentado diante da tela nua – sério, aborrecido, sem nenhuma inspiração. Olhos parados, pensamentos perdidos, tintas abertas, pincel molhado na tinta. O vazio se apoderou da alma dele e paralisou os movimentos. A sala foi ficando grande, grande, aberta, aberta, vazia, vazia, imensa, imensa, sem paredes, sem teto, sem fim. A luz foi amortecendo e os ruídos sumiram. O tempo saiu do relógio e divagou. De repente, a tinta vermelha escorreu da ponta do pincel caiu no chão, sobre uma folha de papel. Deixou um ponto vivo, pulsante. A grande janela se abriu, com as cortinas esvoaçando e ele viu que um menino de olhos vivos e cabelos cor de milho entrou devagar no ateliê. Aproximou-se do papel e, com alegria, começou a espalhar a tinta com o dedo. Foi brincando com a tinta e a imaginação. O pintor olhou o desenho e sorriu. O que buscava com seriedade estava bem ali, em forma de brincadeira, de atividade lúdica e espontânea. Saiu do estado de letargia e viu que o menino, que já saía voando pela janela, era ele. Chamou, mas ele não voltou.
Moral: A arte não é tão séria como se pinta.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 13h53
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 Acoooooooooooooooorda, povo!
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 13h33
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Perdi o último ônibus espacial: vou ter que ir ‘de a pé’ pra casa.
Dois anos e meio atrás, o céu azul foi riscado por rolos de fumaça e um pouco do sonho que nós temos de ir embora da Terra – antes que acabe –, explodiu com sete vidas dentro. O ônibus Columbia se foi.
Mas, ontem, depois de várias checagens, o Discovery partiu. Vai cumprir missão de levar peças e suprimentos para a Estação Espacial Internacional, testar novos dispositivos de segurança e deixar lá um braço robótico de 15 metros. Estão a bordo sete intrépidos astronautas comandados por Eileen Collins – uma mulher. Quem disse que as mulheres não estão por cima? Essa está no mais alto lugar possível, hoje. O que me intriga é apenas aquele braço robótico único de 15 metros. Que fazer com um braço só? Não dá pra dar um abraço afetuoso em nenhum ET que aparecer. Não dá pra jogar baseball, nem basquete, nem nada. Um braço só voando lá tão longe no espaço sideral. Nem dá pra coçar a cabeça, pois é apenas um braço sem corpo e outros membros. Um braço robótico, além do mais. Insensível, inumano e sem o poder de reflexão. Se o braço tiver mão, aí sim, são cinco dedos. E, com cinco dedos, os políticos sabem muito bem o que fazer. Se é que alguém ainda se lembra da expressão ‘passou os cinco dedos’. Com cinco dedos, o braço pode jogar par ou ímpar, pode cutucar o rabo de um cometa. Depois disso, o braço sozinho no ônibus espacial pode servir como bode expiatório. Caso a missão não dê certo, os americanos vão dar uma de João-sem-braço.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 13h30
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As mulheres comem muito doce e se arrependem amargamente.

Jung, misturando várias estações (entre elas, o verão e o inverno), escreveu que precisamos permitir que ‘as coisas aconteçam na psique’. O negócio de perseguir muito e sem tréguas um progresso acaba por bloquear tudo. Os chineses são mestres nessa arte de esperar. Chuang-Tzu receita: “A uma mente tranqüila, todo o universo se rende.” É preciso se livrar da consciência que interfere, corrige, nega. Os processos psíquicos ficam prejudicados, aleijados e demoram pra engrenar. O Tao (Caminho), tão procurado, só se abre quando não estamos procurando. Não apresse o rio, diz o título de um livro. A esperança e o medo são dois censuradores terríveis. Eles estão vigilantes o tempo todo em que estamos acordados. Mas, esquecem de vigiar quando dormimos. Por isso, nos achamos livres sonhando. Porém, podemos criar um ambiente de sonho mesmo de dia. Processar o mundo subterraneamente, no fundo do nosso ser. Uma vida cheia de surpresas agradáveis sobrevém quando não interferimos no andar da carruagem espiritual. Orra, falei bonito! Jung diz que nossa mente consciente não é mais do que um observador ou intruso. Um chato que fica só tentando fazer com que sejamos certinhos e dizer que estamos nos desviando da linha dos contentes, que...
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 11h23
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A cultura contaminada com bolor de tarraxinhas
Descobri que podemos dividir as pessoas em passivas, ativas, retroativas e expectativas. Só um doido faria isso sem consultar os astrólogos ou, pelo menos, tirar as coordenadas das órbitas dos planetas em certo período do ano. Desta maneira, nem me atrevo aqui a discorrer ex-cathedra sobre o assunto. Alguém como Dr. Alexander Marshall me colocaria contra a parede e fuzilaria com as perguntas mais cabeludas. Eu seria obrigado a mostrar todos os relatórios, croquis e escritos clássicos de minha autoria para apenas colocar o trem nos trilhos, mas sem nenhum roteiro de viagem ou estação à vista. E as pessoas continuariam no seu ir-e-vir sem saber que estão divididas em passivas, ativas, retroativas e expectativas. Quero crer que outros autores tenham nas gavetas inéditos de alta serventia para a moderna psicologia, mas por não corroborarem com as técnicas empregadas pelos críticos, deixam de apresentar para a sociedade. Os efeitos da fadiga de material se mostram claramente nos alicerces da sociedade porque lançamos boas idéias aos porcos. E eles engordam só para ir ao matadouro sem roupa nenhuma que sirva. Uma vergonha! Não tenho nenhuma ilusão, conforme esbocei nos capítulos anteriores, quanto aos poderes dos exercícios mentais para corrigir pneus da cintura gramatical. A teoria geral que mais logrou aceitação geral, de minha lavra, foi a que tentou estabelecer fronteiras para lagostas e bisões no trânsito. Nas ruas de mão dupla, as lagostas teriam a preferencial. Nas rodovias, os bisões só poderiam atingir a velocidade máxima de 110 km/dia. Mesmo assim fui contestado veementemente: “E nos becos sem saída, heim, sabidão?!” Bastou isso para que minha teoria fosse encampada e eu afastado da Associação dos Escritores Anônimos. O que me salvou é que tenho alguns passatempos como tirar unha encravada de relógio japonês e compor árias para índios botocudos.
Do livro Fragmentos em frangalhos
(inédito) de John Lewis Lee, Ph.D.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 10h48
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A ARTE DE DESPISTAR CHATOS
Sempre é bom ouvir as duas partes envolvidas em uma questão. Se ouvimos uma só, tendemos a acreditar nela e ficar a favor. Um caso interessante pode ser tirado da vida do grande artista alemão Goethe. Li três ensaios sobre ele: de Paul Valéry (Discurso em honra a Goethe), de André Maurois (dentro de Arte de Viver) e de Somerset Maugham (dentro de Pontos de vista). Claro que não vou nem resumir nada aqui. Calma, não largue já o NeoPseudo... seu chato! Vou apenas citar uma passagem. Dizem que Goethe tinha fama de muito chato para com visitantes. Schiller, poeta, se tornou amigo íntimo de Goethe, mas confessou em carta a um amigo que ele sabia agradar e cativar, mas estava sempre livre e soberano, sendo egoísta ao extremo. Schiller disse que ficaria infeliz se convivesse muito com Goethe. Isso foi citado por S. Maugham. Valéry diz que, em qualquer relação humana, Goethe sentia logo ‘todas as forças da impaciência invadirem-no’ e nada o mantinha junto de alguém mais do que o necessário. André Maurois citou coisas do próprio Goethe que dizia: “Quem quer fazer alguma coisa pelo mundo, deve velar para não se deixar prender por ele”. Escreve Maurois: “Quando, apesar das ordens dadas, um importuno forçava a porta de Goethe, era depressa desencorajado pela atitude glacial do seu interlocutor. Goethe cruzava as mãos nas costas e se calava. Se o visitante era de qualidade, Goethe tossia e dizia: “Hum! Hum! So... So…” e mais que depressa a conversação morria”. “So”, em alemão, quer dizer, mais ou menos, “Ah, tá!” Maugham diz, em honra a Goethe, que aquele algo inumano nele permitiu que nos deixasse Fausto e Wilhelm Meister. Valéry diz que Goethe é “Mestre mais erudito e mais nobre da arte de viver e de aprofundar o gosto pela vida”. Johann Wolfgang von Goethe viveu 82 produtivos anos, livrando-se dos chatos. E a gente ainda não sabe como afastar os que invadem nossa vida! Fica o provérbio: o segredo do insucesso é querer agradar a todos.
Werneck, editor
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 10h41
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A AGULHA E A LINHA
A agulha e a linha eram duas amigas inseparáveis. A agulha era mais independente, enquanto que a linha não fazia nada sozinha. Se tentava, maçarocava e dava nó na vida. Para andar direito tinha que ir aonde a agulha queria. E esta, em algumas ocasiões, gostava da solidão para tirar espinhos, furar bolha d’água, cutucar bicho-de-pé, etc. A linha ficava quieta, sem ação, no carretel. E a agulha, quando saía com a linha, sempre a deixava sozinha em botões ou costuras. Ela aceitava e se conformava com seu destino.
Moral: Agulha e linha sempre querem se achar na vida.
O POLÍTICO E A PROMESSA
Um ostentoso político, que estava sofrendo terrivelmente de um mal, fez promessa diante das câmaras de tevê: se se curasse levaria vida simples e se guiaria pela fé, pela esperança e pela caridade. Cinco dias depois, ele ficou bom. E esqueceu a promessa. Quando perguntaram se não sentia vergonha por tê-la quebrado, disse: — O mal terrível que me afligia era cumprir promessas.
Moral: Vento que venta aqui pode ser tufão lá.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 10h38
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SEMPRE DIGO
PRO MEU UMBIGO:
SÓ GOSTO DE AUTOR
QUE CONCORDA COMIGO.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 10h31
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 Braque não é traque
Braque (1882-1963) e Picasso lideraram o movimento chamado Cubismo. Braque foi um dos primeiros a fazer colagens em quadros (jornais, pano e qualquer coisa em pedaço). Era daqueles caras que brincavam com as coisas. Transformava, inventava, pintava. Mais legal é que deixou um livro chamado O Dia e a Noite, com pensamentos sobre seu trabalho. Veja só:
1) “Nunca teremos repouso: o presente é perpétuo.”
2) “Em arte só é válido um argumento, o de que não se pode explicar.”
3) “Há que se escolher: uma coisa não pode ser verdadeira e verossímil ao mesmo tempo.”
4) “A única coisa que nos resta é o que nos tiram, e isso é o melhor que temos.”
5) “Apenas o que sabe o que quer se equivoca.”
Donde se conclui que nada é conclusivo. Existe apenas o momento de se fazer. O resto não é da nossa conta.


 Georges Braque 1882-1963
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 10h08
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CLARAS ESCURESCÊNCIAS
Cheguei ao ápice da baixaria ou ao patamar mais raso da alta intelectualidade. Junto tudo num pacote de viagem e converso bem sozinho comigo mesmo. Poucos têm esta felicidade de esperar Beckett, Joyce e Ionesco no terminal de ônibus do Cabral. Menos gente ainda pode traduzir em dois cafezinhos uma lauda e meia de Hemingway ou extrair conteúdo psicológico de uma simples tacada na bola cinco. Dou-me por satisfeito ao retornar de uma pescaria com duas novas frases no samburá e ao sacar de dois passos de dança de salão um ensaio de poema. Tenho consciência de que não vou mudar o mundo ao comprar uma barra de chocolate com caju. Mas sei que a velocidade que imprimo na leitura do Dicionário Filosófico do Voltaire pode provocar abalos sísmicos em São Francisco, Califórnia. Concentro-me no sentido literal dos avisos de rua e traduzo para o mais arcaico aproveitamento vivencial. Perco, por opção, a vestimenta revolucionária dos antigos clichês que motoristas distraídos lançam pela janela dos carros em movimento. Estou vivendo a plenos pulmões, recuando as imagens da última corrida de cavalos que vi para um álbum sem fotografias, criando situações onde minha ignorância se expanda e se molhe inteira feliz. Qualquer intensidade de confrontos é descartada como peixe pequeno que o oceano volta a engolir com neutralidade e indiferença. Sou o juiz dos meus infortúnios e réu das alegrias mais voláteis.
Tiro a máscara do Zorro, entro nas salas mais escuras de qualquer filme noir. Hoje, amanhã, ontem ou antigamente. Espero as carroças de leite e pão como paciência de Jó e ansiedade de criança. Totem ou tabu, bravata ou covardia. Ponho fogo no shopping center das emoções mais baratas e toco minha lira. Eu sei que valho a pena, os pêlos, a pele, as escamas. Estou no ponto mais alto de mim mesmo. Falo de mim mesmo com a segurança de quem anda de patins sobre o gelo fino. Salve-se quem quiser.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 09h03
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A ilha do tesouro
Levou uma ilha
pra mulher amada.
Cercado de tudo e
um mar de tédio
por todos os lados,
essa ilha era ele.
Ela viu a ilha,
adorou a ilha como era,
mas primeiro fez dela um cabo,
depois uma península
e por fim um continente.
Limitava-se ao Norte com a paciência,
ao Sul com a resignação
e um oceano de provações diárias
banhava a costa Leste.
Tinha sólido comércio exterior,
boas relações com o
Sacro Império Romano
e usava bem os talheres de prata
no banquete dos líderes.
Mas a Oeste, depois da fronteira,
existia vasta, misteriosa,
inexplorada e intrigante região –
tempos de ilha perdida
com tesouro escondido.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 08h56
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O SAPO E A CORRUÍRA
Um sapo muito pacífico, que morava num brejo bem distinto, recebeu a visita de uma corruíra nova na vizinhança. Ele estava ali, no fim da tarde, ensaiando a cantoria, junto com seus compadres, e chegou a corruíra meio brava. Ela começou a corruchiar pedindo que eles diminuíssem o volume da cantoria, pois aquilo estava assustando seus dois filhotinhos que ainda moravam no ninho. O sapo pediu silêncio aos amigos e escutou a cantilena da corruíra. Quando ela terminou de arengar, ele disse: — Dona corruíra, nós sentimos muito se nossa cantoria prejudica seus filhotes. Mas, acontece que os nossos só dormem bem quando ouvem a sinfonia que fazemos. Se não cantamos, eles ficam acordados e, depois, nós é que não conseguimos dormir. Os outros moradores daqui também nos adoram cantando. Se a senhora veio morar no brejo, deixando a cidade grande, fugindo do sufoco e pensando em proporcionar vida mais saudável aos seus filhotes, deve aceitar o que encontrar aqui.
A corruíra tentou replicar, mas a saparada entrou a cantar em coro e logo os grilos aderiram. A noite caiu serena e tranqüila sobre o brejo e seus antigos habitantes. Para a corruíra, no entanto, que se roía de ódio, parecia o inferno.
Moral: O que mais ocupa lugar na mudança é nosso ego.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 18h16
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Astrud Gilberto não canta mais aqui
Um amigo conseguiu um Apotegma por preço bem razoável. Disse-me que já estava procurando faz tempo. Só havia encontrado Sofismas em liquidação, mas estavam com péssimo aspecto. Muito pior do que qualquer Estultice de primeira linha. Não há razão, ele me segredou, para que não se procure Sandices nestas feiras de roupas de inverno. Elas são fabricadas em cidades frias do Sul e, geralmente, se fazem acompanhar de Escólios, Apodos e Tergiversações. Nunca vi ninguém comprando tudo junto. É necessário que se examine os tecidos, os padrões, os estilos. Leviandades casam bem com Ponderações, embora alguns torçam o nariz. Acham que Subterfúgios cabem melhor na receita, mesmo não sabendo explicar. Aí, justamente, se abre um leque de feelings: Hipérboles, Jactâncias, Preponderâncias, Postulações e, em menor grau, Suscetibilidades. Posso dizer que já fui grande consumidor de Sicofantismo e Tonitruações. A diferença é que vivia num clima temperado e a safra deles era sempre farta e com preço correto. Hoje prefiro Salamaleques em molho de Simulacros que, frise-se, não são muito fáceis de se obter. Acontece que refinei o paladar e os anos de estrada aconselham não tentar Tresvarios com Lisonjas, queijos, vinhos e mulheres. Sempre haverá alguém para nos lembrar do nível de Remoques em que chegamos. Teremos que engolir Blasonarias, Deambulatórios, Embelecadores, Garabulhas e Imiscibilidades. Melhor eu ficar falando de Pirilampos – insetos da ordem dos coleópteros que apresentam órgãos fosforescentes na parte inferior dos segmentos abdominais. Ah, que belos nomes eles têm! Vaga-lume, caga-lume, caga-fogo, cudelume, luzecu, luze-luze, lampíride, lampírio, lumeeira, mosca-de-fogo, noctiluz, pirífora, salta-martin, uauá.
Do livro Fragmentos em frangalhos
(inédito) de John Lewis Lee, Ph.D.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 18h12
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O MONGE E A VIDA MODERNA
Dizem que o monge, morando lá no alto de mais alta montanha, viveu por 30 anos meditando. Levava vida austera e solitária. E ficava semanas a fio sentado no chão, sobre as pernas. Seu pensamento percorria os mais distantes redutos da alma humana. O silêncio era sua única companhia. A meditação, finalmente, abriu todas as portas da percepção e ele obteve a sonhada iluminação. Fraco, abatido, cabelos desgrenhados, barba imensa e suja, com todos os ossos furando a pele, ele queria chamar alguém para contar sobre o fenômeno que encheu seu coração de uma luz magnífica. Arrastou-se até a porta, a custo alcançou a maçaneta e abriu. Lá fora centenas de pessoas aglomeravam-se – orando em torno de dezenas de velas acesas, comendo em carrinhos de cachorro quente, acampadas em barracas, escutando música em porta-malas abertos de carros, jogando cartas, bebendo, etc. A aparição do monge, como que por encanto, atraiu todos os olhares. E o silêncio reinou absoluto. O monge, com voz sumida pela falta de uso, falou: — Aquele que... (sua voz falseava, ficava ininteligível e voltava) e tudo o que tiver que acontecer... (a voz sumia de novo e voltava) e nada melhor do que o silêncio... (fechou a porta e se arrastou para a posição de meditação). Trinta livros foram escritos a partir dessas palavras. Dez CDs foram gravados com repetição infinita das palavras. Um mantra foi composto e cantado ad nauseam. Foi fundada a religião Salvação pelo silêncio, cujo dogma era ‘o silêncio é fiel’. E venderam três milhões de bonecos que falavam as frases exatamente como foram ditas. Quarenta psicólogos reuniram-se e fizeram estudo das palavras de acordo com a posição de grandes filósofos. E uma mulher na Holanda começou a ter visões que mostravam o monge apontando, sem nada falar, para ela como santa e curandeira.
Moral: Qualquer coisa que se ouça tem a importância que se quiser dar.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 18h04
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O PEIXE, O PINGÜIM E O LEÃO-MARINHO
O peixe passeava tranqüilamente pela selva, quando foi surpreendido por um pingüim. — Aha! – disse o pingüim. – Andei muito sem achar nada para comer. Estou morrendo de fome. Sinto muito, mas terei que almoçar você. O peixe, dando salto para o lado, respondeu: — Bem, como deve saber, peixes não andam por aí fora d’água. Logo, devo ser miragem. Você andou muito e deve estar tão cansado que delira. Sou frango! Pingüim não come frango. O pingüim rebateu: — Como deve saber, pingüins não vivem nesta região. Quem deve estar delirando é você! Sou lobo! O peixe disse: — Nesse caso, vamos perguntar para aquele lobo de verdade que vem vindo lá. Vamos saber quem é quem. Quando o lobo se aproximou, o pingüim falou: — Sr. Lobo, por favor, o que vê aqui? Não sou lobo e ele frango? O lobo respondeu: — Ôpa! Ôpa! Sou leão-marinho! E minha fome é tanta que até deliro: vejo um pingüim e um peixe! Meus pratos preferidos! Saltando sobre eles, tratou de devorá-los.
Moral: A fome faz misérias.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 18h02
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Convivendo impunemente
O quanto de toucinho tem na alma humana?
O que é vegetal nos nossos pensamentos?
O que é pedra-sabão no teu andar?
O que foi feito do jogo de jantar das boas maneiras?
Existe algum planeta nas articulações dos braços?
Já suspirou pela planta dos pés?
O que é o câmbio automático no crescimento das unhas?
Quantas notas musicais separam os dentes?
Não, não me diga nada. Não responda. Apenas me olhe com o tanto de árvore que teus olhos se abrem. E sorria com o que é guarda-chuva nos lábios de muitos temporais atrás. Me conforto com todas as folhas de papel em branco que me nascem na palma das mãos.
Escrito por Rui Werneck de Capistrano ?s 11h03
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